26 Outubro

Projecto ímpar e fundamental da música experimental portuguesa, o duo Telectu acabaria por assistir a um fim inesperado em 2011 com a morte de Jorge Lima Barreto que, com Vitor Rua, formou sempre o seu núcleo base apesar das inúmeras e valiosas colaborações que tiveram ao longo da sua existência. Aproveitando a reedição em LP do segundo e histórico álbum “Belzebu” de 1983 e o reconhecimento cada vez mais global da sua discografia, Vitor Rua reactiva uma vez mais Telectu, desta vez com a ajuda essencial de António Duarte, figura importante da cena pop experimental dos anos 80 como D.W. Art (com Manuela Duarte), habitual colaborador do duo e zeloso arquivista do seu espólio. Em palco, os dois músicos recriarão “Belzebu” com invulgar exactidão, utilizando as partituras, instrumentos e projecções originais, aproveitando ainda para nos mostrar a versão corrigida desta obra que inaugurou em disco o minimalismo em Portugal, tal como foi inicialmente desejada pelos seu autores.

Ponta-de-lança indiscutível do ambientalismo moderno, William Basinski tem feito uma persistente pesquisa ao seu espólio de gravações para nos ir mostrando, num cuidado e meticuloso ritmo editorial, o seu trabalho em torno de fitas e loops resgatados do passado. Depois de ter circulado o mundo com o seu “A Shadow In Time”, em parte dedicado a David Bowie, o Semibreve tem o privilégio de receber o novo trabalho do norte-americano, com edição planeada apenas para 2019. 

 A história de “On Time Out of Time” também viaja do passado, mas este bem mais distante: há 1.3 mil milhões de anos, dois buracos negros colidiram numa longínqua galáxia, gerando uma imensidão energética que, finalmente em 2015, atingiu o nosso planeta. Partindo dos registos captados no centro LIGO, nos Estados Unidos, Basinski relata a grande viagem destas ondas gravitacionais e o seu impacto na Terra, propondo uma banda sonora esplendorosa para o Universo. Numa parceria artística em exclusivo para o festival, Fred Rompante fará um mapa luminescente da viagem deste colossal tremor cósmico pelas estrelas.

Apesar da sua maior exposição a solo recentemente, é ainda justo referirmos o nome de Qasim Navqi como baterista dos Dawn Of Midi, que depois de uma incursão pelo jazz decidiram compor “Dysnomia”, essa milagrosa obra já de 2013 mas que ainda mantém todo o seu esmagador potencial. Para quem apenas se fixou neste projecto, a descoberta do restante corpo de trabalho de Naqvi é uma tarefa que devolve preciosas recompensas e no qual esta apresentação no Semibreve se inclui com uma peça em estreia ilustrada, para esta ocasião, pelas imagens psicadélicas da obra-prima “Beladona” de Eiichi Yamamoto. Compõe inúmeras bandas sonoras para teatro, dança e cinema, bem como para ensembles clássicos, e o seu interesse profundo na electrónica e, em especial, nos sintetizadores modulares, têm-no levado a cruzar ambos os mundos, criando composições semi-sintéticas sobrecarregadas de imagens. Este ano viu uma peça sua ser apresentada com pompa pela orquestra da BBC, mas é sozinho, com as suas máquinas e cabos, que cria e desenvolve muitas das suas ideias musicais.

O Universo está em expansão acelerada e o combustível para este fenómeno parece ser uma forma de energia desconhecida que percorre todo o Espaço: esta é a definição de energia negra. Em 2015, Jlin nomeou a sua estreia como “Dark Energy”, decretando o poder e importância que a sua música passaria a desempenhar na nossa realidade. E para nos demonstrar como a teoria estaria correcta, “Black Origami”, o segundo álbum, de 2017, acelerou tudo o que conhecíamos e provocou nova aceleração do Universo. Merecido disco do ano para inúmeras publicações, Jlin atingiu num par de anos o topo e tornou-se uma figura central da electrónica, alguém que parece vislumbrar todas as peças que compõem o ritmo para que delas se faça algo absolutamente novo. Esse resultado, tal como os novos recantos do Cosmos que vamos descobrindo, abre-nos a mente e contagia-nos o corpo. Para dançar no limite, a olhar para o desconhecido.​

Foi só em 2018, imagine-se, que RP Boo lançou o seu primeiro álbum composto de material inédito. Até aqui, a sua música foi nascendo e multiplicando-se como faíscas fumegantes em compilações e maxis diversos, mostrando com uma paradoxal calma editorial as pequenas grandes revoluções que ia fazendo dentro do footwork, um género que inventou e que parece apenas necessitar da sua liderança para continuar a ser decisivo. Embora a proa deste estilo frenético nascido do house de Chicago também possa acomodar outras figuras - do colectivo Teklife ou de Jlin, por exemplo -, RP Boo parece ter identificado na perfeição as partículas elementares - rítmicas, melódicas e subatómicas - para poder ir escrevendo um livro de regras para o futuro do footwork. Como DJ, esperem uma relato irrepreensível de como palpita a vida deste organismo e de como podemos habitar a sua trepidante geometria.​

27 Outubro

Itália ou Berlim são os dois locais - de partida e chegada, respectivamente - que habitualmente se associam a Caterina Barbieri, mas o ponto do mapa mais importante talvez se localize entre os dois, em Estocolmo, na Suécia. Foi lá, no Royal College Of Music, que em 2003 estudou música electrónica e composição, e onde começou a sua relação com o sistema Buchla 200. Barbieri tem referido em várias entrevistas que esse foi o momento definidor da sua actual criação musical, quando foi obrigada a guardar alguns dos ensinamentos clássicos que possuía para começar a observar o som 'em uma' escala microscópica. As composições que saem dos seus sintetizadores modulares são esculturas dinâmicas, repletas de colisões sonoras controladas por fenómenos acústicos e uma atenção rara ao detalhe. Nos momentos mais serenos, o nosso inconsciente sugere-nos viagens; na trepidação dos padrões electrónicos vislumbramos uma escrita musical inesperada.​

concerto apresentado com o apoio do Goethe Institut, Maintenant Festival e SHAPE

Música acústica, eletroacústica e electrónica, ou uma mistura disto tudo; seja que meio utilize e se movimente, poucos nomes nos últimos anos vão merecendo a nossa total atenção e devoção. E nem mesmo uma produção discográfica a um ritmo alucinante - sete assombrosas obras nos últimos 3 anos - vai esgotando a sua importância. Bem pelo contrário, porque em disco ou em concerto vamos percebendo que Sarah Davachi vive uma fase de profunda explosão criativa que merece ser acompanhada, registada e elogiada. Ao vivo, com os seus sintetizadores, vai ocupando a atmosfera com drones majestosos que parece congelarem o tempo, trabalhando afincadamente com a arquitectura e o sistema de som dos espaços onde actua. Numa encomenda do Semibreve, Davachi junta-se neste concerto às ideias visuais de Laetitia Morais para criarem um perfeito filme completo. 

Há um mundo que corre com outra velocidade na música de Grouper, onde brota uma biologia quase estática, que se desenvolve a uma cadência especial, pedindo-nos uma atenção igualmente especial. Temos todos de estar juntos, bem próximos, na música de Grouper, para partilhar essa intimidade. “Grid Of Points”, editado após o celebrado e ligeiramente português “Ruins”, que também surgirá nesta noite, é esse novo convite, como uma colecção de canções à beira do fim que expõem vulnerabilidade, que mostram o silêncio e o vazio que ficam da subtração. Liz Harris dá mais um passo para uma assombrosa depuração formal, largando na atmosfera a essência poética da sua música, criando um generoso espaço que nos convida a conectar-nos. ​

Nascido no Porto em 1964, Alfredo Costa Monteiro tem vivido e trabalhado em Barcelona desde 1992, depois de ter estudado escultura e instalação nas Belas-Artes de Paris com o artista francês Christian Boltanski. A música e o som começaram a fazer parte da sua produção artística pouco tempo depois, focando-se primeiramente no acordeão e guitarra, para depois procurar a alma concreta em objectos diversos para peças sonoras quase sempre em regime low-fi, assumidamente frágeis e instáveis. Com uma vasta produção discográfica a partir do final dos anos 90, a solo e em projectos colectivos, Costa Monteiro mantém inúmeras colaborações activas com músicos como Ferran Fages, Ruth Barberán, Michel Doneda ou Tim Olive. “Shockwave” é a sua proposta para o Semibreve, um concertos electracústico para dispositivos low-fi. 

SØS Gunver Ryberg é compositora e artista sonora dinamarquesa de largos méritos e prémios. Actua em vários campos e disciplinas, com trabalhos para teatro, dança, jogos de vídeo e instalações sonoras, todos eles espelhando distintas atitudes sonoras. Atenta ao meio que a circunda, utiliza gravações de campo como matéria concreta para as suas composições. Por esse modo, num palco, agitando os corpos presentes, SØS Gunver Ryberg conjura propostas demolidoras onde avalanchas de ritmo intenso são dirigidas contra nós, electrificando o corpo e abrindo a mente para outros espaços e tempos, desafiando algumas das interacções fundamentais da física. Um festim techno avassalador que facilmente deixará marcas na nossa memória.

Sherard Ingram, ou Stingray, mudou-se recentemente de Detroit para Berlim para poder professar a sua mensagem mais perto das suas capelinhas europeias. Uma generosidade a que o Semibreve se naturalmente associa porque é importante explicar convenientemente a história da cidade norte-americana e, sobretudo, experienciá-la em corpo presente. Stingray é um dos porta-vozes fundamentais para nos entregar a verdade tal como ela é: filho legítimo de Detroit, Stingray recebeu o diploma DJ pela mão de Moodymann, ainda nos anos 80, antes de ingressar nas fileiras electro de Drexcyia como DJ nos seus concertos onde, decerto, aprendeu tudo o que tinha ainda por aprender. E porque é essencial continuar o legado dessa maravilhosa utopia drexcyiana, Stingray tem sido um perfeito herói dessa resistência subterrânea.​

28 Outubro

Procuramo-lo e Keith Fullerton Whitman está em todo o lado. E bem pode o norte-americano alegar que a sua morada de residência esteja em Melbourne, na distante e antipodal Austrália, para julgarmos que o seu ciclo de poder se extingui. Puro engano: desde meados dos anos 90, com o nome de baptismo ou como Harvatski - nom de plume para o seu pseudónimo extremista -, que tem aberto o horizonte da electrónica, entre o ambientalismo tonal e as redes sonoras complexas dos sintetizadores modulares. Aceitando uma encomenda do Semibreve, Whitman fará uma colaboração com Pierce Warnecke onde irão resgatar ideias e ideiais da op-art e o minimalismo, explorando a síntese sonora e vídeo numa coreográfica sincronia sensorial.​

A música de Robin Fox parece sempre precisar de um corpo, de alguém ou de algo: tanto escreve para coreografias, como cria a sua matéria que, muitas das vezes, paira sobre nós como um objecto tridimensional que nos convidam ao toque. Nesse sentido, os seus espectáculos são peças sonoras que extravasam o palco e preenchem um espaço, quase sempre vazio, atribuindo-lhe uma interpretação física e volumétrica do som, como que a desenhar a sua própria geometria. Os nossos olhos recebem o estímulo luminoso de lasers, os nossos ouvidos uma banda sonora electrónica que vai até ao âmago da sua essência. Tal como quando olhamos para as nuvens, as imagens da música de Robin Fox podem ser muitas vezes o que quisermos, porque também tal como o espectáculo, somos invadidos pela imaginação.​